segunda-feira, 28 de novembro de 2011


História de que Estátua da Liberdade alagoana seria uma maquete que serviu de modelo
para a fabricação da original não é comprovada 

Presença francesa em Maceió

Alessandra Vieira

Obviamente necessárias, as cobranças da sociedade alagoana quanto à má conservação dos monumentos expostos nos logradouros e praças públicas de Maceió não são o único ponto a ser observado quando se trata daqueles exemplares que levam a marca da fundição artística francesa Val d'Osne. No mínimo curioso talvez, seja tentar descobrir como essas peças vieram parar aqui. Inclusive porque, de concreto – além da assinatura de onde foram forjadas, gravada em cada uma –, pouco se sabe sobre elas.
A mais emblemática dessas esculturas parece ser mesmo a réplica da Estátua da Liberdade (fixada atrás do prédio do Museu da Imagem e do Som de Alagoas - Misa, no bairro de Jaraguá). Tida como um exemplar esculpido na Val d'Osne, sua história envolve mistério, idas e vindas e, provavelmente, um equívoco que já dura décadas.




Estátua dos Jardins de Luxemburgo seria a outra réplica 

Sem comprovação histórica

Reza a lenda que o monumento seria uma das duas maquetes (a outra estaria dentro dos Jardins de Luxemburgo, na cidade de Paris) usadas pelo escultor francês Frederic Augusto Bartholdi, para servir de modelo à execução da grande estátua símbolo dos Estados Unidos. A cópia fiel, única no Brasil, teria chegado à capital de Alagoas graças à influência de Rosalvo Ribeiro, ilustre pintor alagoano que caiu nas graças do então governador Euclides Malta.
Patrocinado pelo governo do Estado, o artista viajou à França em 1888 (e lá permaneceu durante 12 anos, até 1901), onde conheceu Bartholdi e selou uma estreita amizade. Para Gilberto Leite, assistente administrativo do Misa, devido a essa relação, Rosalvo Ribeiro teria conseguido que o exemplar viesse para cá. “Foi a influência de Rosalvo que fez com que a estátua fosse trazida para Maceió”, contou.
“É uma réplica fiel, guardadas as devidas proporções, da existente na cidade de Nova York (Estados Unidos da América), presenteada esta pela França (1886) e tendo sido ambas as estátuas, a dos EUA e a nossa, confeccionadas na mesma fundição francesa, a do Val D’Osne, em fins do século XIX. A Estátua da Liberdade de Maceió é a única existente no Brasil”, alega Miguel Vassalo Filho, ex-diretor do Misa, em um texto que faz parte do acervo do museu, publicado em 2000.
No entanto, até hoje, não foi encontrado nenhum documento que possa provar essa teoria. É o que defende o professor e historiador Benedito Ramos. “Não existe nenhuma documentação oficial que comprove essa história. Há anos pesquiso sobre o tema e nunca encontrei nada. O que acredito é que a peça tenha vindo no mesmo lote em que vieram as estátuas dos animais (o leão, a leoa, o javali e o lobo, localizadas na Praça Dois Leões, em Jaraguá), a da divindade (Mercúrio – pertencente ao acervo da Associação Comercial de Maceió) e as das quatro crianças, que ficam na Praça Deodoro. O certo é que a encomenda foi feita por Euclides Malta, que, apesar de sua origem sertaneja, era muito erudito. Prova disso é que alguns dos prédios mais pomposos da cidade, como o do Teatro Deodoro, foram construídos na sua gestão. Naquela época, graças à influência européia, a cultura brasileira, inclusive a alagoana, passou a ser a gosto francês. Então era muito comum exportar esculturas da França”, afirmou Benedito Ramos. “Também não é impossível que, devido ao sucesso da Estátua da Liberdade, várias réplicas tenham sido confeccionadas e distribuídas pelo mundo”, disse.
É o que também afirma Vera Dias, gerente de Monumentos e Chafarizes da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Segundo ela, entre 1879 e 1900, as Fundições Val d’Osne fabricaram diversas cópias perfeitas da estátua. “Pelo que se sabe, muitas foram destruídas em 1944, quando a chamada Comissão de Metais não Ferrosos do governo francês decidiu fundir estátuas em bronze, em toda a França, para fabricar armas a serem usadas contra os alemães na Segunda Guerra Mundial. Assim, das estátuas da Liberdade originais de metal, restaram apenas a brasileira e a de bronze, que está nos Jardins do Luxemburgo, em Paris, até onde se tem notícia”, disse a arquiteta e urbanista em entrevista a O JORNAL.



Estátua da Liberdade na Vila Kennedy seria a verdadeira

A Estátua da Liberdade carioca                                  

Contudo, a estátua brasileira a que Vera Dias se refere não é a que se encontra em solo alagoano. Segundo ela, em Vila Kennedy, no bairro carioca de Bangu, existe uma Estátua da Liberdade esculpida pelo mesmo Frédéric Auguste Bartholdi, feita a partir da peça original que serviu como modelo para aquele que é o mais importante cartão-postal de Nova York.
“A estátua que hoje se situa em Vila Kennedy foi uma encomenda a Bartholdi pela família Paranhos, em 1899, dez anos após a Proclamação da República do Brasil. Não se sabe quando exatamente a peça chegou ao País, mas é fato que ela foi instalada inicialmente na residência de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, na Avenida Pasteur, 206, Rio de Janeiro. Trata-se de uma peça em liga de níquel”, defende Vera.
Para ela, a existência hoje de uma peça em liga de níquel no Rio de Janeiro sugere a hipótese de ela ter sido feita a partir da original, construída por Bartholdi em 1875, apresentada como modelo de seu célebre projeto monumental. “Nossa Estátua da Liberdade deixou a casa da família do Visconde do Rio Branco quando esta se desfez da propriedade. Não se sabe se a escultura foi doada ou vendida ao antigo Estado da Guanabara. O fato é que o então governador Carlos Lacerda procurava uma forma de homenagear os Estados Unidos pelos recursos recebidos. Quando Lacerda soube da existência da estátua, abandonou a ideia de mandar fazer um busto de Abraham Lincoln, estimulado pelo antiquário Paulo Afonso de Carvalho Machado, que lhe garantiu a autenticidade da peça de Bartholdi”, afirmou.
Controvérsias à parte, o fato de a Liberdade alagoana ter ou não ter sido esculpida por Auguste Bartholdi não desmerece o valor histórico da obra. “A existência de protótipos em outros países e a grande peça em NY representam muito bem o valor da obra”, garante Vera Dias.

Em 1990 a estátua retorna ao seu pedestal por trás do Misa 


Rota da Liberdade pela cidade

A Estátua da Liberdade chegou a Maceió em 1904 e, de lá para cá, movimentou-se entre alguns pontos da capital alagoana. Logo quando foi trazida, passou a figurar no centro da praça hoje conhecida como Dois Leões.   
Em 1918, a réplica alagoana foi transportada para um pedestal atrás do prédio da então Recebedoria, hoje Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Misa). “A mudança ocorreu no contexto de uma reforma da chamada ‘Ponte do Desembarque’, promovida no governo de Batista Accioli (1915-18), engenheiro civil com passagem pelos EUA e filho de senhores de engenho. À época, os navios fundeavam na enseada de Jaraguá e botes embarcavam e desembarcavam os passageiros, tendo como apoio um cais de madeira e ferro que começava num ponto próximo ao prédio da Recebedoria e adentrava uns 150m no mar. Havia também uma casinha na Rua Sá e Albuquerque, entre a Recebedoria e o trapiche ao lado, onde hoje está instalado um banco, que funcionava como bilheteria e alfândega”, disse o historiador Golbery Lessa no artigo Maceió: entre a estátua da Liberdade e o Zeppelin, publicado no blog http://novoirisalagoense.blogspot.com/.
“A estátua, portanto, foi transportada para próximo da praia (que até 1940, ano de inauguração do cais do porto, era muito mais próxima da Recebedoria, dos trapiches e da Associação Comercial) com uma intenção simbólica parecida com aquela que estava na base da construção de sua irmã norte-americana. A ideia, nos parece evidente, era a de expressar um liberalismo conservador, mas de alguma forma aberto à incorporação econômica das massas, ao progresso da indústria, à ciência, ao racionalismo e ao comércio mundial”, descreveu.
Em 1939 foi construída a Praça do Centenário da cidade de Maceió. E, mais uma vez, o monumento mudou de lugar. “A mudança reafirmava a importância e o prestígio social do bairro do Farol, região então preferida pela burguesia. Foi o então prefeito Eustáquio Gomes de Melo, engenheiro udenista com especialização nos EUA e na Europa, quem convocou a Estátua da Liberdade de Jaraguá para figurar no meio da nova praça, onde ficaria no centro de um espelho d'água, uma remissão à Ilha da Liberdade, na qual se localiza a estátua norte-americana”, disse Golbery.
Durante o governo de Muniz Falcão (1956-60) e a gestão do prefeito Abelardo Pontes Lima (1956-60), “a dama da liberdade foi retirada da Praça do Centenário para dar lugar a uma estátua do general Góes Monteiro. (...) A então desprestigiada Estátua da Liberdade foi remetida para uma pequena praça construída na fronteira entre a Pajuçara e o Jaraguá, antes de ser devolvida, nos anos 1990, durante a gestão do governador Ronaldo Lessa, ao seu pedestal, localizado por trás da antiga Recebedoria, naquele momento, já Museu da Imagem e do Som de Alagoas”, contou o historiador.


Mathurin Moreau em Maceió

Ao contrário da Estátua da Liberdade, que, devido à altura da sua base – ao todo, os dois, a estátua em bronze e o pedestal em alvenaria, medem cerca de seis metros de altura, segundo informações de Miguel Vassalo Filho em seu texto –, fica impossível visualizar algum tipo de inscrição, nas esculturas do leão, da leoa, do javali, do lobo (fixados na Praça Dois Leões, em Jaraguá) e nas das quatro crianças que ladeiam a Praça Deodoro, no Centro da cidade, é, com alguma exceção, fácil identificar a inscrição "Fonderies du Val d'Osne”.       
Não existe assinatura do escultor, no entanto, há evidências que, ao menos a coleção da Praça Deodoro seja de autoria de Mathurin Moreau. “Nas cinco estátuas situadas no jardim do Museu da República, no Rio de Janeiro, Moreau se aproxima levemente da arte animalista ao conceber obras exóticas, com cerca de um metro de altura, denominadas ´África´, ´América´, ´Europa´, ´Ásia´ e ´Oceania´. Cada continente é representado por uma criança com tipo físico característico daquela região. E elas estão em luta com animais nativos: crocodilo, cobra, lobo, tigre e canguru. O mesmo conjunto embeleza Maceió, mas lá está incompleto, desfalcado da Oceania”, garante a jornalista Eulalia Junqueira.
Segundo ela, “Moreau formou-se pela Escola de Belas Artes de Paris e vinha de uma família de artistas. Além das múltiplas e produtivas atividades em prol da arte em série, seu talento deixou marcas em prestigiosos trabalhos realizados em Paris, como na Ópera, no Palais du Trocadéro, no Hôtel de Ville, no Tuileries e no Palais de Justice. Suas criações refletem uma variedade de estilos. Uma das influências de sua época, presente em obras adquiridas pelo Brasil, é o exotismo. O tema estava em voga devido à expansão colonial e às viagens marítimas comerciais”, disse.

PARA ENTENDER MELHOR

Depois da França, o Brasil é o país que reúne a maior coleção de objetos forjados nos ateliês do célebre Val d'Osne, berço da fundição artística francesa, situado na região de Champanhe.
Para começar a entender melhor essa história, é preciso voltar ao século XIX, logo após a Revolução Industrial. Segundo a jornalista e pesquisadora Eulalia Junqueira, foi naquele momento que nasceu essa nova forma de arte – símbolo dos ideais da época: modernidade e progresso. “Foi uma verdadeira febre na Europa. Fruto do inusitado casamento da indústria com a arte”, descreveu a jornalista, autora do livro “Arte francesa do ferro no Rio de Janeiro”.
Entre tantos países europeus, a França se destacou como berço artístico dessa nova forma de fazer arte. E, assim como o mundo se espelhava em Paris, o Brasil se espelhava na Corte. “É certo que a influência francesa no Brasil remonta a 1808, ano em que a família real portuguesa, para escapar dos exércitos de Napoleão, desembarcou no Rio com uma corte de 15 mil fidalgos. Foi a partir dali que a cidade europeizou-se, com a contribuição decisiva da Missão Artística Francesa de 1816, chefiada por Joachim Lebreton”, contou Eulalia Junqueira.
“As razões principais encontram-se na necessidade de embelezar os espaços públicos com obras de arte (Rio de Janeiro, Recife, Olinda, São Paulo). Da França, elas vinham a preços baixos por serem produtos industriais. Palácios e residências também receberam muitas dessas obras; foi moda buscar ‘de Paris’ essas peças, e os construtores-arquitetos conheciam esse mercado. Em muitas cidades (Porto Alegre, Salvador, Pelotas, Rio Grande do Sul, etc.), os chafarizes franceses de ferro vieram para, além de embelezar a cidade, abastecer a população com água potável quando da criação das primeiras Companhias Hidráulicas”, descreveu a arquiteta Flavia Boni Licht em seu livro “As belas Fontes d’Art no Rio Grande do Sul”.
“O resultado é que importantes obras artísticas e decorativas de ferro fundido são ainda hoje encontradas no Estado do Rio de Janeiro e também em Amazonas, Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Elas eram adquiridas, geralmente, durante os períodos de apogeu dos ciclos econômicos regionais”, disse Eulalia Junqueira.

2 comentários:

  1. Companheira, em pesquisa com meu filho encontrei aqui a melhor argumentação sobre este patrimônio, que como todos os outros, esquecido pelo poder público de nossa querida Maceió. Obrigado. Bju

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  2. Que bom que o blog prestou esse serviço a vocês Lulinha. Fico feliz e pode ter certeza de que a pesquisa foi bem aprofundada. Abraços!

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